Há porcos que repugnam a sua própria porcaria,
mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um sentimento,
pelo qual o apavorado se não afasta do perigo.
Há porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade cotidiana
por essa mesma atração da própria impotência.
São aves fascinadas pela ausência de serpente.
Moscas que pairam nos troncos sem ver nada,
até chegarem ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente,
Assim passeio lentamente a minha inconsciência consciente,
no meu tronco de árvore do usual.
Assim passeio meu destino que anda, pois eu não ando;
o meu tempo que segue, pois eu não sigo.
Fernando Pessoa


2 comentários:
PUNGENTE!
PUNGENTE!
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