domingo, 20 de janeiro de 2008

Um trunfo para os catadores de lixo

Já ouviu falar em arquétipos de tortura terrorista? Então...

Acho perda de tempo hipervalorizar tanto as telenovelas brasileiras.
Mas também acho que passar batido diante do que provocam, é pior.
Para mim, não houve novela pior do que "Duas Caras" nos últimos 20 anos.
São vários ângulos dispersos, em um propósito "sem propósito". A Globo transporta sua ansiedade por audiência ao caldeirão do diabo. É uma emissora ao mesmo tempo audaz e ingênua, infeliz. Convive no contraste o tempo todo. Unir Aguinaldo Silva e Wolf Maya tornou-se um tiro no pé. Ou na própria cabeça.
"Duas Caras" começou, está no ar e vai terminar proporcionando uma exacerbação da ignorância social. Reúne medalhões, atores nível B e C e algumas descobertas em um emaranhado perdido. Aguentar Fagundes no mesmo estereótipo de sempre, rechaçar o racismo, preconizar a favela amadoristicamente, ilibar o samba carioca e implementar o excesso de informações descabidas, é um genocídio inevitável.
Não gosto da condução (e nem da pessoa) de Wolf Maya. Sua energia é ruim, nociva, pesada. Sua figura é mais ainda. De A a Z, a novela agoniza. Inicia com a abertura tosca de uma favela-maquete sem sentido. O samba-protesto de Gonzaguinha é superlativo como trilha sonora desse projeto. É bem maior, muito maior.
Mara Manzan está no limite da arrogância insuportável. Lázaro Ramos ergue a bandeira do "negro inteligente" como produto a ser reverenciado. Dalton Vigh é sempre o mesmo. Suzana Vieira virou uma assombração, um filme de terror. Betty Faria, José Wilker, Stênio Garcia, Marilia Pêra, Renata Sorrah, Marilia Gabriela e Nuno Leal Maya estão putrefando seus históricos talentos, em decorrência das germinais afetações de Aguinaldo Silva. Este, como se não bastasse, clicheriza a "ávida necessidade" de expor a questão gay na teledramaturgia. No contrapé, também em posicionamentos sofríveis, Alyne Moraes e Flávia Alessandra dão a volta por cima no futuro porque são jovens ainda. Idem à Débora Falabella.
A Globo, porém, usa e abusa disso tudo para desafogar novas caras. A morena Débora Nascimento é a única coisa louvável surgida, mas que cai no idealizado estereótipo da "morena gostosa". Mas ainda vai voar...
"Duas Caras" disputa com "Big Brother Brasil" o título de lixo de 2008.
Prato cheio para os nossos irmãos catadores.

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