terça-feira, 27 de novembro de 2007

"O nascimento do prazer", por Carol Gilligan

Na mitologia, o prazer nasce da união entre Psiquê e Cupido, mas na vida real contemporânea o seu nascimento só é possível quando nos livramos de uma série de complexos de culpa e sentimentos de perda. Este é o tema básico de O nascimento do prazer, o quarto livro da famosa psicóloga americana Carol Gilligan, que baseou seu trabalho em grupos de estudo, na literatura e em sua própria experiência pessoal.
Não há traição que fira mais que a traição de amor. Entre as feridas que a autora tenta cicatrizar no tratamento de casais em crise, de filhas que não se dão bem com as mães, de pais que não entendem os filhos, entre outros desajustes, ela escolhe como um dos principais obstáculos o patriarcado, uma ordem de vida que enaltece os pais e põe tanto os filhos quanto as mulheres sob a sua autoridade.
Embora o feminismo tenha combatido esse tipo de hierarquia por todo o século 20, ele permanece, entre outros exemplos, na excessiva preocupação com a masculinidade na formação dos meninos. Apesar do tema complexo, o texto de Carol não apresenta jargões técnicos e flui com simplicidade por assuntos como Complexo de Édipo, interpretação dos sonhos e descoberta da sexualidade. Para isso, ela também recorre, além da já citada mitologia, a autores como Proust, Shakespeare e Freud, e se detém por muitas páginas no "Diário de Anne Frank", quando fala das relações nem sempre amistosas entre meninas e suas mães e também sobre a moral puritana que evita a todo custo o assunto sexo.
A busca pelo amor e o prazer passa pela recusa às regras do patriarcado, como faz Psiquê ao contemplar a beleza de Cupido, o que era proibido. Saída de uma história antiga, ela é uma mulher dos nossos tempos. Recusa-se a viver como um objeto; desrespeita os tabus contra ver o amor e falar sobre ele, diz a autora. Essa destruição de antigas fórmulas, conta Carol Gilligan, faz parte do processo de transformação, a metamorfose que é a própria essência da criatividade. Os casos estudados e citados em detalhes mostram como é complicado lutar contra modelos de comportamento firmemente estabelecidos.
"Por que depois do prazer viria a ausência?", pergunta Carol. A hierarquia, seja ela de qualquer tipo, cria tensão, competição e divisões, impedindo as pessoas de se sentirem livres para amar. Num exemplo, a escritora cita a clássica obra Em busca do tempo perdido, de Proust: o trecho reproduzido é de No caminho de Swann, quando o menino decide não ir dormir enquanto sua mãe não lhe der o beijo de boa-noite. A presença do pai e o medo de uma possível bronca contra este gesto sensível justificam a definição de que a única forma de não ser vulnerável consiste em se fechar. Apesar disso, como a psicóloga indica, o amor corrói o patriarcado e ainda é a melhor forma de resistir aos obstáculos do prazer.

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